Viagens na minha terra

O drama de Joaninha e Carlos

Almeida Garret, ilustre prosador, poeta, dramaturgo, orador, par do reino e ministro, cuja vida decorre no séc. XIX, num dos períodos mais agitados da vida portuguesa, tem uma obra literária grandiosa.

Entre impressões de arte, paisagens e costumes, escreve “Viagens na minha terra” e vai tecendo uma novela sobre ideias, sentimentos, factos e circunstâncias contemporâneas. O enredo acontece no Vale e em Santarém e as principais protagonistas são uma avó e uma neta. A primeira é uma velhinha de cara e mãos enrugadas, vestida com roupas estranhas que mais parecem de um monge, está sentada numa cadeira baixa, a trabalhar numa dobadoura com movimentos ritmados. Direita e aprumada, tem olhos azuis sem brilho, já desbotados. É cega resignada e paciente, mas a sua cegueira não a impede de perceber o que se passa à sua volta e dá a sensação a quem a observa que sabe muito da vida e que guarda um segredo.

A segunda protagonista da novela é a neta Joaninha, uma adolescente de rara beleza natural, espiritual, graciosa e elegante. Tem olhos verdes sedutores e cabelo negro ondulante. É como uma deusa da mitologia grega que fascina, perturba, alucina e desperta paixão doentia a todos os homens novos e menos novos que a observam.

Noutros excertos de capítulos que lemos na aula, há um protagonista também importante na história, o primo Carlos, já casado com uma inglesa, ferido gravemente na guerra civil entre liberais e absolutistas. À beira da morte, Carlos tem à cabeceira, por companhia, a sua mulher e um frade, que aproveitam o momento crítico para, em nome do amor que lhe dedicam, fazerem revelações e confissões inesperadas.

Carlos reage mal à presença do eclesiástico e das suas intenções e, mesmo a desfalecer, profere palavras desagradáveis e tenta agredi-lo. A inglesa confessa que sabia que Carlos tinha uma paixão pela prima, mas naquele momento isso era irrelevante e perdoava-o. Mas o frade, o que estaria ali a fazer o frade? Não era com certeza para lhe encomendar a alma.

O clima era pesado e azedou. O segredo da velha avó cega foi desvendado e rebentou o escândalo: o frade tinha já protagonizado dois assassinatos e o Carlos não era filho do pai, mas sim da mãe e do frade!

Feitas as revelações, era inevitável um empolgante drama para aquela época, magistralmente escrito pelo autor.

Termina aqui para mim aquilo que eu captei da leitura dos excertos dos últimos capítulos da história lida na aula de Português.

Maria Irene Veiga

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