2 – A escola

A escola, desde a primeira hora, foi para mim um espaço agradável onde me sentia a crescer, aprendendo a leitura, a escrita, as contas, as regras de convivência social e onde me sentia bem entre os companheiros. Sempre voltado para os outros, gostava de estar com eles e com eles brincar ou estudar. Nunca me senti um ser ensimesmado, metido com os meus botões. Preferi sempre estar com os outros, partilhar abertamente a minha vida com quem comigo estava.

Já falei da minha segunda classe em Vila Velha de Ródão e do gesto premonitório do professor Benjamim a que sempre atribuí alto significado na condução do meu futuro por parte dos meus pais. Mas outros acontecimentos se sedimentaram na minha memória, sinal da importância que lhes atribuía.

Começo pela preparação para a escola. Eu tinha tendência para ser canhoto, o que naquele tempo era um estigma a combater. Assim, a mãe foi prevenindo dificuldades futuras para o filho não sofrer muito na escola e, quando eu saía de casa para brincar, era frequente enfiar-me uma meia na mão esquerda para eu não a usar. Ai de mim se aparecia em casa com a meia suja! Era sinal de que tinha jogado com ela, tinha atirado pedras aos pássaros ou que me tinha apoiado nela nas brincadeiras. E lá vinha o chinelo a surrar-me. Tinha forçosamente de utilizar a dextra, pois na escola era assim que se fazia. Realmente, habituei-me em muitos trabalhos a ser destro, embora ainda hoje tenha mais força na mão esquerda e a use em gestos mais difíceis ou mais precisos. E no futebol sempre foi a perna esquerda a que melhor servia para acertar a potência e a direcção da bola. Tanto a usei para rematar que o joelho direito começou a sofrer muito cedo com as torções que suportava por ser o pé direito a assentar no chão. Aos dezanove anos de idade, lá fui para o Hospital de Santa Maria para ser operado ao menisco pelo Dr. José Maria Vieira (porque é que eu me lembro disto?!). E nunca mais a coisa ficou em condições, tendo ainda hoje no joelho direito o meu “calcanhar de Aquiles”!

Bem, com esta preparação (não posso brincar um pouco?!), fui um aluno distinto logo na primeira classe. O prof. Flor não teve muita dificuldade em ensinar-me a ler, a escrever e a fazer contas. Tão depressa fazia os trabalhos que na prova de passagem de classe me foi dada uma folha dividida em quatro espaços por um traço vermelho em cruz. Em cada espaço havia uma operação aritmética a fazer, as contas de somar, diminuir, multiplicar e dividir… Como fiz o trabalho bem e depressa, não tinha como passar o tempo restante e lembrei-me de pegar no aparo e começar a borrar de tinta azul o tal traço vermelho que o professor tinha feito. Conclusão: não fora castigado durante o ano, apanhei reguadas na prova final!

António Henriques