Neste desenrolar dos dias, para quem anda já a rondar os oitenta, as coisas começam a medir-se apenas pelo essencial, pois os pormenores já não cabem na memória. E depois perguntam-me como foi isso de começares a ler, que prazer te dá e que peso tem nos teus dias… Ora, vamos lá ver!

Nasci numa casa de aldeia, de paredes nuas e poucos objetos a ocupar espaços. Livros? Nem um frequentava aquela casa, mais virada para as ferramentas de mãe e pai, no seu ofício de prover o sustento da família. Tachos, peneiras, enchós e martelos, agulhas e tesouras, serrotes e plainas, eram os meninos bonitos dos meus pais, ela analfabeta e ele aprendiz de leitura por conta própria nos serões de inverno e às escondidas do seu pai, que achava inútil a escola…

Foi, pois, na escola que pela primeira vez manuseei o papel e olhei para as letras, desenhando-as com todo o cuidado, não vá o olho de lince do professor descobrir um traço menos perfeito, o bastante para a régua se chegar às mãos e deixá-las bem quentinhas…

Mas as letras estavam destinadas a moldar toda a minha vida. E como o gaiato se mostrou interessado, o seu professor quase exigiu ao meu pai que ele me mandasse estudar. Com os estudos, vieram os livros com naturalidade. O que primeiro me encheu a imaginação foi o de Júlio Verne – A Ilha Misteriosa, cheio de aventura. E os livros aos quadradinhos? Não, não existiam ou não me chegavam a casa. Fiquei assim privado do acesso à imagem na minha educação, eu, filho devoto de Gutenberg.

No entanto, por obrigação ou por gosto, lá fui ocupando os meus tempos de estudante, mais voltado para os desportos que para a contemplação. E os livros foram, na verdade, um dos instrumentos essenciais da minha aprendizagem e do meu ofício. Vi neles utilidade e prazer. Ainda hoje é assim. Normalmente, tenho dois livros sempre à mão: um a introduzir-me nos mistérios da vida com mais profundidade (formação) e outro mais voltado para a fruição do prazer – poesia ou romance.

É sempre com muito gosto que me sento numa esplanada a beber um café e a sorver um livro. Mesmo nas férias, sempre escolho dois ou três livros para encher os meus dias. Aprender mais e deliciar-me com a leitura de novos escritores é assim o meu máximo entretenimento, a que associo no presente a viagem pelo mundo digital, outro modo de ler a vida.

António Henriques

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