Não era fácil prover as nossas casas deste líquido tão importante. A aldeia não possuía qualquer fontenário, não obstante as diligências feitas junto das autoridades. E nem se imaginava que pudesse existir água canalizada até às nossas casas. Havia o poço da aldeia bem fundo, tapado, com uma abertura para com corda e caldeiro se tirar a água e encher as vasilhas, normalmente o asado, isto é, uma vasilha de barro com duas asas. Também ali perto havia uma pia de pedra para dar de beber aos animais. Era criança e já ouvia falar daquela pia, que não estava bem ali, devido às escorrências de águas e dejectos que podiam chegar ao poço e inquiná-lo. Mas por lá continuou até não sei quando, que o meu tempo de permanência na aldeia não foi longo e nada a memória reteve…

O poço ficava longe das casas e era sempre com grande sacrifício que se desempenhava a tarefa de carregar com os cântaros. Sabia tão bem colocar a rodilha na cabeça para suavizar o peso do asado!

No Inverno, com os poços cheios de água, tudo melhorava, pois bem perto da nossa casa estava o poço da ti’ Ana, onde muitos seus vizinhos iam encher os cântaros. Pura magnanimidade desta família.

Diga-se ainda que a água se usava com muita parcimónia. Gastava-se mais na cozinha, já que as casas de banho eram os campos e os currais dos animais, onde umas folhas verdes, umas pedras ou um pedaço de jornal eram preciosos para certas ocasiões. Tomar banho? Um jarro de água e um alguidar grande com um pouco de sabão, uma vez por semana, punham as pessoas limpas para ver a Deus.

Só muitos anos mais tarde se resolveu este problema.

Outra dificuldade era lavar a roupa. As mulheres carregavam grandes trouxas à cabeça e deslocavam-se à ribeira do Vale da Catrina, ainda a grande distância, para pôr a roupa a corar e lavá-la na água corrente. Era um dia inteiro, muito cansativo, que os mais pequenos aproveitavam para brincar, pescar algum peixito e terem os primeiros contactos com a água para aprenderem a nadar.

António Henriques