Também tenho direito a dizer coisas!…

1 – A minha história

A história talvez tenha início naquele distante ano de 1947. Frequentava a segunda classe da Escola Primária de Vila Velha de Ródão, com o prof. Benjamim, um homem bonacheirão que chegava de burro ao seu lugar de trabalho. A memória pode não ser já muito fiel, mas fiquei com a impressão que ele orientava a sua classe com mestria, impunha respeito e exigia trabalho aos seus pupilos.

No final do ano lectivo, chamado à escola para as informações finais, o pai fica todo inchado ao ouvir as melhores referências acerca do filho:

– Sr. Aníbal, o seu filho tem uma boa cabeça. Gosta dos trabalhos da escola e comporta-se bem. É melhor o Senhor pensar bem no assunto, pois eu acho que estas cabeças não se podem perder. Tem de ver como é que o seu menino pode continuar a estudar, que era bom para ele e para o nosso país.

– Sr. Professor, eu sou pobre… Não sei como hei-de responder ao seu conselho! Como é que eu ponho este menino a estudar, sem posses para tal? Mas obrigado pelo conselho…

Vai um carpinteiro a matutar para casa com uma flor no ouvido e este espinho no peito, que decerto lhe provoca para já mais alegrias que preocupações. Em casa, o ar de satisfação com as notas do filho e as palavras do professor enchem de luz e doçura uma daquelas casinhas pequenas que o Sr. Trigueiros, dono da Cerâmica de Ródão, dispensava a alguns trabalhadores para nelas viverem. 

Os dias vão correndo e tudo continua na mesma, é verdade! Mas pai que se preze não vai esquecer o recado, sobretudo este pai, grande entusiasta da escola. Ele aprendera a custo na juventude as primeiras letras durante uma quaresma com o vizinho, a quem pagava um tostão por noite para o azeite da candeia. Acresce que tal ocupação se fazia às escondidas do seu progenitor, que, se o visse com papel e lápis na mão, logo lhe arranjava trabalho para o ocupar: – Vai dar de comer aos bois, não precisas de letras para nada. Eu também não precisei. 

Foi este mesmo pai que no tempo da tropa fez a terceira classe e, já com quarenta e tal anos, ainda conseguiu o diploma da quarta classe, creio que para tirar a carta de condução. Tempos difíceis…

António Henriques