(CONTINUAÇÃO DO TEXTO ANTERIOR)

E a vida estava organizada em comunidade.

Havia o forno da aldeia no largo maior (também era o único largo!), onde as mulheres semanalmente coziam o pão, respeitando a vez de cada uma. Havia o moinho da aldeia, onde todos ou quase todos tinham um quinhão, que lhes garantia um dia ou uma noite por mês para se ir moer uma saca de milho, centeio ou trigo. Este último era menos usado, que as terras eram pobres e só pelas festas se usava na alimentação. No Natal, no Carnaval e na Páscoa lá vinham o “pão trigo” e os bolos, quer dizer as saborosas filhoses natalícias e as ferraduras da “quinta-feira das Endoenças” (5.ª-feira santa) que os padrinhos ofereciam aos afilhados. O milho comia-se mais no tempo frio e o centeio, no Verão. Lembro-me bem de um dito daquele tempo:

_ Oh! Pão trigo com queijo é muito bom!

– E como é que o sabes?

– Ora, vi-o comer do outro lado do Tejo.

Esta é uma alusão às levas de homens e menos homens (crianças de 12 anos, como o meu pai…), chefiados por um manajeiro (aprendi então esta palavra!), que todos os anos iam para o Alentejo ceifar o trigo daquelas searas sem fim que se prolongavam para Espanha e de onde vinha bom dinheiro para acudir às despesas extraordinárias da família, nomeadamente as botas novas ou alguma peça de vestuário que não se conseguia pela costura.

Voltando ao forno comunitário, era ali perto, naquele largo, que se juntavam as pessoas e brincavam as crianças. Ali se organizavam os bailes em certos domingos, uma via normal de aproximação entre rapazes e raparigas, que desta maneira não provocava falatório e facilitava o conhecimento mútuo. Por vezes, contratava-se um acordeonista para abrilhantar a dança, que habitualmente era comandada pela voz de uma moça de garganta afinada a que todos respondiam.

Para pagar ao artista, rifava-se um bolo feito por uma voluntária e arranjava-se dinheiro. Também tive a sorte de uma vez me sair um desses bolos!

E as crianças? Jogavam muito naquele largo, corria-se, saltava-se… Havia uma escadaria de pedra na casa contígua que aproveitávamos para subir e lá do alto saltávamos para o terreiro. E uma vez saltei tão depressa que caí em cima do parceiro anterior, escorreguei para trás e bati com a cabeça na parede. Ainda hoje tenho vestígios dessa brincadeira no couro cabeludo.

Nesse forno, que todos os dias funcionava, era aí que saboreávamos pequenos gostinhos que hoje parecem ridículos. Quando conseguíamos surripiar uma batata ou uma cebola em casa, íamos ao forno e pedíamos à senhora que metesse esta guloseima no borralho a assar. Que maravilha! Melhor que batata-doce ou chocolate, que eram coisas que nunca víamos. O que é o borralho? É aquele monte de brasas acesas que se varrem do forno e ficam na porta a mantê-lo bem quente.

Muitas lembranças deste forno, o coração da aldeia… Mas, com o uso, tudo se vai gastando e o forno também. Um tijolo cai das paredes ou da porta por causa da lenha que se mete dentro, por vezes à força. O forno precisa de obras, mas lá vai resistindo à medida que o povo também resiste a gastar dinheiro. Até que numa bela manhã, sem ninguém saber como, aparece o forno esbarrondado, obra de alguém mais corajoso que outros. Pela calada da noite, uma picareta esburaca a estrutura e impossibilita o uso do forno. E lá se reúnem os vizinhos, juntam os tostões e pagam as despesas da reparação. Para quê ir à procura do culpado se até todos agradecem o feito?