A pedra danada

Manda o professor que eu invente um texto em que a palavra “pedra” fique destacada. E eu, olhando para as recordações do baú da minha já longa história, deparo logo com uma pedra malvada que um dia estragou o meu dia. Nem tudo são conquistas, êxitos e glórias no nosso viver. Também nos manchamos com certos gestos e até há êxitos que, bem vistas as coisas, não passam de fracassos gritantes. Eu conto:

Andava eu em menino apanhando taralhões com os meus costis, divagando pelos montes à espera que algum galego, papa-figos ou pisco caíssem na armadilha, quando deparo com o canto estridente e sincopado de uma felosa no ramo de um pinheiro.

Um dos meus entretenimentos era atirar pedras a qualquer alvo para acertar a pontaria. E nesse triste dia, aponto os olhos para aquele passarinho, tão pequeno e descarnado que nem valia o trabalho de o depenar e fritar para nosso consolo, como fazia com os outros.
E não é que à primeira pedrada atinjo aquele minúsculo ser, que cai morto no chão sem mais se mexer?
É quase milagre apanhar uma ave deste modo. Mas este milagre mói-me a consciência desde então. Passaram dezenas de anos e aquela pedra danada ainda me dana a alma.

AH

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