Ti Maria Redondinha

Vou hoje falar-vos de um fenómeno sociológico que, não sendo apanágio apenas do Alentejo, aí tem particular e interessante incidência.
Trata-se do uso dos anexins ou alcunhas – fenómeno cultural que pressupõe que a certos indivíduos se outorgue um segundo nome que pode ter a ver com particularidades físicas ou morais, origem, deficiência, etc.
Este fenómeno está ligado à ruralidade. O anexim é próprio da aldeia. O meio urbano torna as relações impessoais, não há a sã comunicação, não há vizinhos.
Alguns dos nossos maiores escritores portugueses conceberam personagens baseadas em verdadeiras figuras típicas de aldeia e que precisamente ficaram imortalizadas pelo seu segundo nome (anexim).
Estou a lembrar-me de “O Malhadinhas” de Aquilino Ribeiro”, “A Brasileira de Prazins” de Camilo Castelo Branco” “ A Morgadinha dos Canaviais” de Júlio Dinis e Mestre Finezas do livro “Aldeia Nova” de Manuel da Fonseca.
O anexim, desde os tempos mais remotos, foi usado pelos povos. A palavra anexim tem proveniência árabe de “ na-nanxide”, assim como alcunha, de “alkúnia”.
No Baixo Alentejo, existia o hábito (cada vez mais em desuso) de pôr anexins.
O anexim é quase sempre um aposto linguístico, que qualifica, individualiza e esclarece algo sobre a personalidade. São várias as proveniências dos anexins:

1) Hipocorísticos: Zézinho, Carradinhas, Parrinhita, Bia, etc.
2) Podem provir de defeito físico: Pernuca, Cabeçudo, Maneta, Careca, Coxinha.
3) Do carácter próprio do indivíduo: Alarve,” Amexa (mole), Boavida (preguiçoso) Passarão, Passarinho, Pardal, Pisco etc.
4) De ofícios: “Albardero”, Barbero” Alfaiate, etc.
5) De proveniência étnica: Algarvio, Espanhol, Galego, etc.
6) Toponímicos: Zé Fontainhas, Zé do Valongo, Rita da Alagariça.

No século passado, na geração que desapareceu, registo alguns que existiam em Colos: Ti João Perinha, Ti Maria Espanhola (criada de servir mais de 20 anos em Espanha onde tinha o anexim de Maria la portuguesa), Ti Eduardo Filhó (meu avô), cujo chapéu semelhava uma filhó, Chaplin, Sargento Bera, Ti Pernuca, Ti Maneta, Ti Coxinha, Ti Meio Litro, Caçoila, Zé Avé e um sem número de Bias: Bi Catrina, Bia da Irene, Bia Chica.
Mas de todos os anexins o que mais curiosa me deixou foi o da Maria Redondinha: Se ela não era forte, não era gorda, como ganhou este anexim?
Excelente “bolandreira” muitas vezes era chamada a casa de várias senhoras abastadas para confeccionar as “alconcras” e as “popias”.
Contam, então, que na hora da merenda, que a patroa servia, a Maria Redondinha era sempre a última a terminar a refeição dizendo: – Mais um pouco de queijo para arredondar.
Como, por sua vez, sobrava pão, ela dizia: – mais uns piques de toucinho para arredondar. E agora para terminar arredondo com uma azeitoninha!
Assim ganhou ela o anexim de Maria Redondinha…

Maria Vitória Afonso

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