A LITERATURA com M.a VITÓRIA AFONSO

 - Participando num Encontro Literário em Montemor-o-Novo (24/05/2013)

Porque não publicar estas notas? Talvez alguém aproveite… AH

A Vitória Afonso é um exemplo vivo de como os anos dourados da aposentação servem para nos atirarmos para outras vivências, ganharmos novas habilidades e contribuirmos para embelezar o mundo em que vivemos…

Tudo começou em 2005, com crónicas publicadas no extinto jornal «Tribuna do Povo», em que ela escrevia sobre temas alentejanos para os muitos alentejanos que vivem no concelho do Seixal. Em 2008, publica o seu primeiro livro, intitulado «Contos e vivências do Sudoeste Alentejano», onde colige várias crónicas publicadas no jornal, a que junta ainda uma rica colectânea poética. E em 2013 surge o seu segundo livro - «Contos alentejanos: cozendo o pão, costurando a vida».

Diga-se, pois, que a identidade literária da Maria Vitória se distribui por duas facetas: a de cronista e a de poetisa. Pessoalmente, já lho disse e já o escrevi, a sua veia poética é mesmo o terreno onde ela manifesta maior profundidade de pensamento, aliada a uma mestria na criação de variadas formas poéticas, de que destaco o soneto e ainda o uso das décimas, tão típicas do Alentejo.

1 - Neste livro, o estilo da Maria Vitória distingue-se pela riqueza descritiva do seu vocabulário alentejano. Palavras como açorda, abegão, talego refletem toda uma vivência regionalista, ao lado de outras que até estão quase em desuso, como “enchapotas” ou “catacuzes”, que muitos alentejanos já não conhecem…

A autora recorre constantemente aos ditos populares, ao palavreado típico, o que faz deste livro um repositório linguístico muito interessante. Ex:  «Bolinho, bolinho, quem não dá bolinho dá pão com toucinho.» (pág. 35)

2 – Em segundo lugar, a autora traz à memória os «longos serões de Inverno à lareira. Aí se reuniam avós, pais e netos em fraterna comunhão, um elo de ligação de afetos entre crianças, adultos e idosos que hoje em dia se perdeu.» Como ela diz na pág. 99, são os diálogos dos seus familiares que a levam «a relatar os encantos duma ruralidade que está hoje muito diluída».

E se é verdade que a literatura sempre foi vista como um espelho ou reflexo da sociedade, também ela é uma poderosa alavanca para a transformação da mesma sociedade. O simples hábito da leitura torna a pessoa mais ilustre, estrutura melhor o seu pensamento e torna-a capaz de intervenção comunitária. Li há pouco que «O hábito da leitura pode estar associado à metáfora da refeição. O que lemos e como lemos produzirá necessariamente efeitos na nossa maneira de olhar o mundo. E para ler bem, é preciso ler devagar. Saborear, apreciar, mastigar. Dar tempo à digestão. E sobretudo não ter pressa. Ler é como quem está à mesa. Conversa-se demoradamente com um livro sem forçar a hora para terminar esta refeição.»

Livros como este, além de serem repositório de saberes, vivências, linguagens dos nossos maiores, são também um apelo à reflexão pessoal sobre como vivemos a nossa vida.

Mas como? Estes pedaços de vida dizem respeito a um tempo em que os pequenos acontecimentos eram tema das conversas diárias, que se repetiam e passavam de boca em boca, ficando na memória. Bem diferentes são os nossos tempos, em que o anonimato é a regra e o tempo de viver é tão vertiginoso que nem damos por aquilo que se passa na nossa cidade, na nossa rua, quiçá dentro de nossa casa… Daqui faço um apelo bem simples: porque não se desliga a televisão e se gasta algum tempo em leitura amena e em cavaqueira familiar? Acho que vale a pena…

A história oral, que passa de pais a filhos, precisa do registo escrito para se perpetuar. É o que faz a Vitória Afonso com uma riqueza descritiva pouco comum… Olhando para a própria capa, vejam como ela fala, na pág. 30, da Ti Joana Vera:

 «Cinco agulhas, uma onça de linha, uma réstia de sol a aquecer a soleira da porta… ei-la a trabalhar sentada na habitual cadeirinha de buinho.»

3 - As crónicas de Maria Vitória, como alguém disse de Miguel Torga, «conseguem cativar até os mais preguiçosos em termos de leitura». Não é preciso muito tempo para ler duas ou três páginas, que é o espaço de cada conto! Por isso, não há desculpas válidas. Vamos ler as crónicas da Maria Vitória…

4 – Apresento agora alguns pormenores sugestivos:

Como personagens das crónicas, na vila de Colos, estão em primeiro lugar os próprios familiares, a começar pela avó Djamila que, para além de dizer uns palavrões, também era instigada pela neta a dizer “puseste as cebolas” em vez de «prantaste as çabolas». Ao que ela respondia: «eu digo “prantaste” porque pôr, põem as galinhas»…(pág. 33)

- Há a história da tia Fortunata (pág. 45) que viu a sua galinha ser morta por um automóvel, coisa bem rara no tempo, e diz: - «panhei uma ralia tão grande que, com os nervos, comi-a toda»!

- Ou ainda o orgulho pessoal do soldado 60: (pág.75) que «é da família do Mal-Espigado, a que me orgulho de pertencer», diz a Vitória. Não tolerando que os importantes lhe faltem ao respeito, leva para a tropa uma carta de recomendação do coronel Brito Pais, mas, porque este chamou «anjinhos» aos rapazes daquele tempo, a carta foi e veio na sua mala de cartão, nunca chegando ao destino…

-Nos “Serões e contos de assustar” (pág. 99): o pai contava, embora descrente, o que o boieiro do Barranco do Bebedouro lhe segredava acerca da Zorra Magra, uma alma penada que gemia de castigo por talvez em vida ter desviado algum marco para possuir mais uns palmos de terra.

- Ti Chica Juilha (pág. 63): a autora apreciava as visitas a esta personagem. Pormenoriza mesmo as qualidades da sua memória, classificando-a como «um repositório de quadras, adágios, pequenas orações, quadras populares, adivinhas e histórias tradicionais.» E vá de a Ti Chica Juilha, à soleira da porta, numa noite quente de verão, contar histórias mirabolantes em que nem todos acreditavam:

- a mulher sonâmbula que vai ao poço buscar uma bilha de água à cabeça e só acorda quando a bilha se estilhaça ao entrar em casa;

- ou a noite em que seis bruxas lhe entram no quarto pela fechadura da porta, dançam até mais não e saem pelo mesmo buraco… Não acreditam? «Ora, minhas filhas, eu não sou mentirosa! E acredito no demónio, como acredito em Deus! Se há o mundo do Bem, também há o mundo do Mal». Como estão a ver, é uma lógica férrea!

- Maria do Norte (pág.59): mulher cheia de vida, maltratada pelo marido bêbado, mas amiga dos vizinhos e dos animais. Um dia o seu cão, o Benfica, foi atropelado e ela, toda chorosa, apenas pede para o malfeitor a ajudar a enterrar o bicho. Quando já ia para a cova, o Benfica abriu um olho e pouco a pouco lá se foi reconstituindo. A Maria do Norte, toda entusiasmada, dirige-se às vizinhas gritando: - O meu Benfica ressuscitou… (Vamos lá a ver se o meu Sporting também ressuscita!)

 3 – Uma visão social do tempo

- Neste livro, querendo ir mais fundo na análise, eu digo que, usando uma expressão recente, há mais vida para além da crise: uma coisa são as teias com que os políticos nos embrulham, outra a vida pura, cristalina, de relações pessoais desinteressadas, amigas, que tecem o dia-a-dia das gentes de Colos.

Mesmo assim, sem análises sociológicas, surge

- Uma descrição dos estratos sociais a partir do modo como se conseguia o almejado pão alentejano que entrava em casa por meios diferentes. (pág. 21)

- Também, na pág. 25, podemos ver um lavrador a peneirar! Coisa estranha, tarefa de mulheres, das criadas de casa… Mas aconteceu…O ridículo a que se expõe o lavrador que quer abusar da empregada, mas que esta põe a peneirar enquanto vai avisar a patroa…

- É frequente as pessoas conhecerem-se mais pelos anexins que pelo nome próprio. No conto chamado «No tempo das virgens» (pág. 41), aparecem algumas alcunhas curiosas: «o Dentinho de Ouro, o Braço Curto, o Mentira Fresca… a Joana Pé de Bácoro, a Zezinha Cebola, a Maria Presunta, a Pardala…! E, a propósito de virgens, também estes assuntos mais reservados entram na conversa. A autora fala assim: «a noiva estreara uma linda camisa de dormir branquinha, cheia de rendas e folhos; o noivo, pacientemente, deixou-a instalar-se na cama e, passados alguns minutos, disse: -Já estreou a camisinha?! Atão agora dispa!»

- Finalmente, a Ti Maria Espanhola… (pág. 71) Neste quadro, apetece-me dizer que a vida em Colos, S.ta Luzia, Odemira, etc., era cheia de colorido e processava-se para além da política. Ti Maria Espanhola (não se fica a saber porque estaria ela em Portugal – talvez para fugir à guerra civil, como acontecia também com um senhor na minha terra da Beira Baixa), dizia eu, Ti Maria Espanhola vive integrada na comunidade, em perfeita harmonia, sem perder embora a sua idiossincrasia andaluza, de moral rígida e devoções à Virgem Macarena e à Senhora del Rocio. E tão integrada está que até pede à estudante, autora deste livro, para lhe escrever uma carta ao Generalíssimo Franco a pedir um subsidiozinho… Mas tudo à revelia e às escondidas do pai da Vitória, reconhecido antifascista, para quem Franco seria como um demónio…

Muitas outras histórias enchem estas páginas. Façam favor de as ler…

Termino com uma citação ilustrativa das capacidades literárias da Vitória Afonso, quando, na pág. 37, nos descreve um quadro pictórico maravilhoso dum prato de feijão branco com dobrada:

- «A própria travessa em que o manjar vinha para a mesa era convidativa: o feijão, de um branco acetinado, os quadradinhos de cenoura, a linguiça às rodelas vermelhas, as talhadinhas de chouriço preto e os bocados de dobrada nos seus rendilhados, com um pouco de tomate, davam a este prato um colorido e um cromático muito especial».

E obrigado por me escutarem…

António Henriques

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