Francisquinha

Entre o Alentejo e a Diáspora

Eu fui professora em Colos durante seis anos. Devia ter 23 anos aquando do episódio que vou relatar. Adorava a minha profissão, não só porque sempre gostei de crianças, mas também porque ela, a profissão, servia de lenitivo a uma juventude infeliz e de grande sofrimento e que involuntariamente causou desgosto a alguém para o resto da vida.

Mas vamos à minha história:

Em 1964, eu lecionava na escola feminina de Colos onde tinha três classes, como nesse tempo se dizia: a primeira, a segunda e a quarta. O meu ano de escolaridade preferido sempre foi o primeiro, crianças de seis anos vindas do meio rural com quem aprendi muito. Daí me veio talvez a paixão pelas descrições e registos da ruralidade em minhas crónicas escritas com tanta paixão. E reivindico o estatuto de camponesa como o de contadora de histórias alentejanas.

Mas … prosseguindo a minha história… Na primeira classe, eu tinha 18 crianças. Vinham algumas dos montes, que percorriam cerca de dois quilómetros para chegar à escola. Era o caso da Francisquinha. Desde o primeiro dia, notei que era uma criança a que tinha faltado muita sociabilidade, pois vivia num monte bastante isolado apenas com o pai e a mãe. De família só tinha uma avó que também vivia sozinha num monte.  Ao entrar na escola, denotava grande timidez, pois era sempre de olhos no chão que falava comigo e com as colegas. Com o tempo, apercebi-me de algumas dificuldades de aprendizagem sobretudo a nível oral. Cheguei a pensar que precisaria de mais um ano para dominar os mecanismos da leitura. Porém, puro engano meu…  a partir do primeiro mês de frequentar a escola, Francisquinha desabrochou e integrou-se na turma com êxito. Desinibiu-se completamente. Um belo dia quando eu estava a escrever no quadro umas frases para elas copiarem, ouço a voz tímida da Francisquinha a chamar-me insistentemente:

– Que se passa, Francisquinha?!

– “Pro…schora, venha cá …venha cá”. “Panhe lá aqui miinha borracha”.

Eu apanhei a borracha, entreguei-lha e sorri ternamente.

Estava ganha a nossa relação!

Maria Vitória Afonso

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