A Páscoa de outrora

A caminho da Semana Santa, deixo aqui um pequeno texto sobre como se celebrava a Páscoa na terra onde eu nasci, no tempo em que eu era criança!
Desde tempos imemoriais que a Páscoa sempre foi celebrada.
Na terra onde eu nasci, mantinha-se a tradição da Páscoa de outrora.
Começava na quinta-feira santa, a partir das 15:00h, quando os sinos da igreja repicavam para anunciar “a passagem do tempo de trevas para o tempo de luz”.
Mal os sinos se calavam, tudo caía num profundo mutismo. As ruas ficavam desertas, os adultos paravam os seus afazeres, as crianças corriam para as suas casas, proibidas de fazerem barulho ou até mesmo de brincarem.
Durante esses dias, não se podia cozinhar os alimentos e era proibido comer carne. Como não havia frigoríficos, as refeições, à base de frituras, eram previamente cozinhadas.
Até o tempo, quase sempre soturno, parecia entrar em profunda letargia, apenas se ouvindo o leve ressoar de passos na calçada das pessoas que acorriam à Igreja para a Vigília Pascal.
Nos altares, as imagens dos santos ficavam cobertas com faixas pretas ou roxas, em sinal de luto.
Ainda me lembro da minha avó materna, toda vestida de preto, a caminho da Igreja, para rezar durante horas a fio. Ela afirmava que quem rezasse com fervor e sem interrupção trinta e três Credos, tinha a salvação da alma garantida.
Sábado de Aleluia, os sinos de novo repicavam para anunciar a ressurreição de Cristo. A algazarra das crianças de novo enchia o ar. Até os passarinhos voltavam a gorjear.
Por fim, chegava o tão esperado Domingo de Páscoa.
Vestiam-se as roupas mais bonitas para se assistir à missa. Depois da missa, a família reunia-se para receber o Compasso Pascal, anunciado pelo som estridente duma campainha, que um jovem, envergando uma opa vermelha, badalava incessantemente.
O Pároco, devidamente paramentado e acompanhado da sua comitiva, entrava em cada uma das casas, aspergia as pessoas com água benta e pronunciava: Jesus Cristo ressuscitou, Aleluia, Aleluia! Depois, um membro da comitiva dava a beijar a Cruz aos donos da casa e membros da família.
Alguns acompanhantes do Pároco recolhiam as oferendas feitas em dinheiro, azeite, laranjas, cereais e outros produtos.
Ao longo do dia, as crianças iam engrossando a procissão, que percorria as ruas da Paróquia. De vez em quando, vinda de uma varanda ou janela, surgia uma chuva de rebuçados e chocolates, que as crianças disputavam alegremente.
Nesse Domingo, não faltava na mesa de cada família o tradicional cabrito assado no forno, o folar (bola de carne), um bom vinho, o pão-de-ló e outras guloseimas.
Aos padrinhos de baptismo era oferecido o ramo feito com alecrim e oliveira, que tinha sido benzido na missa de Domingo de Ramos. Os padrinhos, por sua vez, ofereciam aos afilhados roupas, brinquedos ou dinheiro.
E assim se mantinha a tradição da Páscoa!
Conceição Tomé (São Tomé)
(Corroios)

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