A vida a dois

É muito agradável verificar que os meus alunos continuam a produzir. AH


O casal ao contrair o seu matrimónio (civil ou religioso) é sempre abençoado por Deus e os noivos fazem promessas de amor eterno, de fidelidade e de comunhão.
Promessas que o casal terá de assumir e abraçar com toda a responsabilidade. Não pode esquecer a doação mútua, a grande compreensão entre os dois, porque na vida em comum, ambos terão de aprender a aceitar as solicitações inesperadas, acreditar que vão tropeçar em várias crises mas, com resignação e empenhamento serão amorosamente ultrapassadas. As crises entre um casal podem ser oportunidades de reforçar a comunhão no lar, se temperadas com um verdadeiro amor conjugal.
Numa relação matrimonial se houver amor não há lugar para revoltas nem desentendimentos, mas sim uma vida apaziguada e feliz.
Se porventura o casal passar por momentos menos agradáveis deve assumi-los em comunhão sem que a carga pese apenas nos ombros de um deles.
A vida a dois não pode permitir solidão. Só acontecerá se não tiverem diálogo, nem partilha e se cultivarem um clima de indiferença. Se assim for, cria-se uma relação distante, fria e uma convivência nada saudável. Os casais desajustados acabam por agir egoisticamente, sem preocupações de se magoarem, culminando numa situação de individualismo.
Há comportamentos muito diversos, uns recomendáveis, outros nem por isso. Se o casal se inclinar a pedir a proteção divina, pretendendo levar uma vida pautada por valores morais e espirituais expressos em gestos de bondade e aceitação mútua, encontram no seu lar a felicidade plena.
Entre os dois deve existir em abundância a paciência, ponderação, humildade e simplicidade, fatores que enaltecem e divinizam o relacionamento.
Perante o sofrimento de cada um, o outro deve apoiar, ajudar a aliviar a dor e dar consolação nesses momentos difíceis.
Em todas as circunstâncias da vida podem emergir vários ciclos: alegria, felicidade, mas também tristeza e infortúnio. No entanto, é impossível viver-se constantemente em plena felicidade e, do mesmo modo, em pleno infortúnio. É normal haver alternância entre os momentos afortunados e os desanimados.
Numa família verdadeiramente saudável, o sofrimento empurra o homem para o progresso. Se o mundo oferecesse somente o prazer, o homem não evoluiria sem altos nem baixos e a vida transforma-se-ia numa rotina destituída de sentido. Não existindo criatividade, novas experiências, ninguém poderia avaliar, comparar, distinguir o bem e o mal. As caminhadas seriam sempre feitas pelas mesmas estradas, com os mesmos objetivos, despidas de novos acontecimentos. Todos os seres humanos são surpreendidos por passagens de sofrimento, dor e igualmente por acontecimentos alegres e felizes. Estas experiências trazem boas lições.
A alegria incentiva a alma e dá-lhe a sensação de felicidade. Obviamente, as pessoas não aceitam de bom grado o sofrimento, de preferência abrem a porta à felicidade.
O sofrimento oferece ao homem um caráter mais forte, humano, humilde e ensina-o ao mesmo tempo que a vida não se apresenta sempre luminosa. E não só! Com o sofrimento, o indivíduo torna-se mais benevolente, condescendente, caraterísticas muito positivas na orientação da vida de um casal. Ao destino ninguém foge, mas cada um pode fugir à intolerância, aspereza e às discussões, situações muito pouco recomendáveis.
A felicidade é o oposto do sofrimento e também se manifesta de diversas maneiras, não é unicamente viver em abundância e com todos os ideais realizados. Poder-se-á apresentar com o sentido de uma vida sadia, sincera coerência no que se faz, no que se é e naquilo que se deve ser. Também se pode sentir com uma vida de simplicidade, de doação de amor para com os outros e com o espalhar sorrisos para os que necessitam de consolo.
Sem dúvida, o conceito de felicidade é muito vago e subjetivo. Na realidade, as pessoas são mais felizes quando encontram um grau mais elevado de satisfação com a vida, associado ao progresso, ao dinheiro e ao prestígio. Mas na vida familiar não é uma atitude a considerar. Interessa antes que as relações interpessoais com o companheiro, filhos e amigos, sejam de profunda afetividade.
Quem coloca ao nível de família a felicidade procurando insistentemente o bem estar material, bom estatuto pessoal, revela um comportamento carente, não pode ser feliz e a família sofre consequências. Sabe-se que o capitalismo leva à lógica da insatisfação, porque quanto mais têm mais querem.
Felizes são aqueles que colocam a família e os amigos como sendo a razão principal da sua existência. O casal que vive de acordo com essa perspetiva é sem dúvida um casal realizado, embora não haja a felicidade perfeita neste mudo.
Com o casamento, o casal tem como grande objetivo o sonho de serem pais, abraçarem um filho fruto do seu amor. O seu rebento é o maior prémio do mundo e a sua plena realização. Nessa altura, as responsabilidades redobram, não pode haver individualismo e antes uma grande dedicação à vida do lar com o trabalho repartido pelos dois.
O verdadeiro companheiro nessa altura encontra mais alegria em sua casa. Em relação ao emprego, dedica-se com mais empenho desejando encontrar estabilidade económica na família, promotora de estabilidade afetiva. Esforçam-se a serem dois como sendo uma só pessoa, numa doação mútua de amor.
Em relação à vida afetiva, na família, são importantes os abraços, risos e choros à mistura vivendo todas as condições com o mesmo estado de alma. O uso do perdão e da generosidade também são gestos imprescindíveis.
Em relação à vida económica, é necessário praticar uma gestão doméstica equilibrada, bem orientada, dos recursos financeiros disponíveis, para evitar a falência dos bens básicos e cair numa situação de indigência.
Numa vida a dois, cabe a cada um deles uma total disponibilidade para em comum planearem o futuro familiar, respeitando a liberdade criadora e de opinião, mas apontando sempre para um percurso comum, lado a lado: aceitar a vontade do outro, oferecer novas experiências e gestos carinhosos, ter a criatividade de surpreender o companheiro, apresentando uma culinária diversificada e de qualidade dentro das preferências do outro e dos filhos.
Em relação ao trabalho, há deveres a cumprir, ambos participarem no trabalho doméstico e na educação dos filhos. A vida em comum cria laços de aproximação, que, jamais permitirão a fragilidade das relações conjugais e a rutura enquanto casal.
Para qualquer família a casa é o seu mundo e quando se respira um ambiente terno e feliz, o seu lar torna-se um verdadeiro paraíso. Todas as pessoas procuram dar à sua casa a melhor comodidade e preocupando-se igualmente com o seu arrumo e organização. Sendo possível, será agradável que a natureza se entranhe no seu interior, recorrendo a uma decoração à base de plantas interiores, flores, tudo o que dê uma sensação de vida, que encante o olhar a desabrochar de felicidade.
Mas, infelizmente, a vida não se reveste somente de maravilhas. Ninguém pode acreditar que a vida se resume unicamente ao amor e a uma cabana.
Lamentavelmente, registam-se casais que vivem em pleno sofrimento, maus tratos e em plena violência doméstica. Registam-se graves agressões e ódios, casos que assumem proporções dramáticas, tão trágicos ao ponto de se constatarem suicídios e mortes.
Conclui-se que nesses lares nunca existiu o amor a Deus, porque se tivesse sido praticada uma cultura cristã, esses seres humanos seriam possuídos de um espírito puro, de bondade, incapazes de praticar atos tão abomináveis. São situações que parecem irreais mas, infelizmente, existem. São comportamentos irracionais, indignos, desumanos e imperdoáveis.
Por todas essas razões e más posturas, hoje em dia, há muitos casais desfeitos e em situação de divórcio. É triste, muito triste! E quem sofre as consequências? Sem dúvida que são as crianças, os filhos dessa família. Filhos esses que deveriam ser amados pelos pais, aliviados de todo o sofrimento, considerados como seus rebentos, que deveriam crescer na florescência da vida e em plena felicidade. Mas não é o caso. Os pais deixaram-lhes uma herança que os marcará negativamente para a vida. Ficarão traumatizados para a vida inteira, angustiados com a sombra destas trágicas memórias.
As mentalidades que não tiveram a capacidade de adaptação ao seu companheiro, com manifestações de gestos desumanos e cruéis, arrastaram o seu casamento para um fim inglório e consequentemente provocaram um rombo no desenvolvimento físico e intelectual dos seus filhos.
Neste ano, 2021, continuamos a ser esmagados pela pandemia covid-19, lutando pelo seu combate, sofrendo dolorosas consequências e a respeitar a sujeição ao confinamento.
É com estranheza que se sinalizam casos de casais que apresentam uma estrutura incomum.
Há casais que sempre viveram indiferentes, maltratando-se e de costas voltadas, surpreendentemente, com o confinamento (vida mais em comum), uniram-se, aproximaram-se, normalizando o seu relacionamento. Mas, em contrapartida, incrivelmente outros casais que se amavam, viviam numa relação saudável no período do confinamento, afastaram-se por incompreensões e fadiga.
A vida ao longo dos dias vai oferecendo grandes transformações àqueles que por ela passam.

Rosa Fernandes

2 comentários em “A vida a dois”

  1. Este texto escrito pela colega Rosa Fernandes é duma profundidade a todos os níveis.
    Muito bem elaborado e que deveriamos meditar nos problemas que existem em muitos casais por esse mundo fora e que infelizmente se tende a agravar.
    Mais náo digo e aproveito para a felicitar por este belo testemunho

    1. Assim nos vamos animando uns aos outros, quer porque apoiamos os colegas quer porque os colegas nos apoiam. E é muito bom partilhar conhecimentos e sentimentos. Abraço do António Henriques

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