Não é costume publicar dois artigos seguidos do mesmo autor. Mas esta aluna faltou uns tempos por questões de saúde... E mesmo em casa quis trabalhar para o nosso blogue. Todos aceitamos esta exceção... AH

 

A frase foi dita num programa sobre criminologia na TV portuguesa o ano passado. Para perceber o significado e alcance da mesma, é preciso situá-la num determinado contexto.

Advogado e psicólogo forense discutiam e analisavam um crime hediondo, praticado por um jovem casal, aparentemente para se apoderarem de bens imóveis e dinheiro da vítima, no caso mãe e sogra, respetivamente.

Nessa discussão, os intervenientes deram grande importância a uma conversa entre a polícia e a mãe do presumível assassino; a senhora, muito transtornada, tentou defender o filho dizendo que nunca concordara com aquele casamento, que ele era um rapaz bem formado, professor, culto, educado, sensível e que nunca teria colaborado numa monstruosidade daquelas, a não ser que fosse coagido a fazê-lo.

Só a partir da análise deste episódio, sai a frase que me perturbou e que passo a repetir:

- A uma mãe nunca um filho cheira mal!

Maria Irene Veiga

A última frase do texto levou a uma longa conversa na aula, que agora resumimos.

Entre nós, dissemos que uma mãe tem uma ligação tão forte com o filho que "nunca lhe acha defeitos". E mesmo que os admita, ainda os desculpa e até os justifica.

Também se disse que a expressão "cheira mal" se aplica a tudo o que não presta e só serve para lixo. E neste caso a palavra muda completamente de sentido. Não é uma ação física, própria dos sentidos; é uma reação psicológica para a mãe.

O amor humano chega a ser "cego" - outra palavra que muda por completo de sentido, o que numa aula de português não passa despercebido (semântica, homonímia...).

Indo ainda mais fundo na conversa, também se falou na força das emoções e dos sentimentos na perceção da realidade. Custa mais a acreditar num facto verdadeiro quando se põe em cheque o nosso amor, a nossa ideologia ou a nossa fé. Queremos à força arranjar desculpas, como ainda há pouco vimos em diálogos na TV. Os nossos são sempre os melhores... E vá lá ter mesmo a cabeça fria para julgar, votar, mudar de opinião... AH