Na verdade, hoje voltei mais ao Ripanso, uma aldeia pacata onde moravam umas trinta famílias ao tempo em que eu era criança, isto é, anos 40-50 do séc. passado.
As pessoas viviam sobretudo para a agricultura de subsistência. Com profissões especiais, tínhamos apenas um carpinteiro, um sapateiro, um cantoneiro e um ferreiro, o Ti Lipondo, de quem só muito tarde soube o verdadeiro nome ao estudar História – são célebres os reis da Bélgica com o nome de Leopoldo!
Assim, as pessoas passavam a maior parte do tempo nas hortas. E, para mais, as leiras eram pequenas e cada família tinha de se deslocar a várias propriedades para tarefas agrícolas complementares: num lugar havia alfaces, cebolas, tomates, noutro lado, couves e nabos e noutra courela, o milho. Depois, havia terrenos para centeio, vinha, fruta e outras coisas. Muito tempo se perdia de lugar para lugar. A minha família, pobre, tinha mais de cinco hortas…
Também era normal as pessoas se autoajudarem em épocas de mais intenso trabalho nos campos, juntando-se em grupo para certas tarefas – apanha da azeitona ou do grão, desencamisar do milho…
Depois, ainda se tratava do galinheiro, do porco a engordar para o Natal e das cabras, para termos leite e queijos… O macho ou mula, de meias com o meu tio, semana sim semana não, era também boa ajuda para tanta azáfama…
Ainda era necessário levar o milho e o centeio ao moinho para a mãe fazer o pão… Vida intensa, com muitas ocupações!
E de extraordinário, o que acontece?
Para além do carteiro em visita regular, tínhamos dias raros em que aparecia um visitante mais especial para nos facilitar a vida. Vou falar de alguns.
Em primeiro lugar, lembro-me do capador. Cada família comprava um porquinho que precisava de ser capado, para a carne mais tarde não ficar com o cheiro desagradável, que as hormonas masculinas deixariam. E esse serviço veterinário era função do capador. Os porquinhos ficavam sem testículos e também mais mansos, para no tempo do Natal nos darem a saborosa carne que nos alimentava durante o ano.
Passava também pela aldeia o marchante, nome que desapareceu do nosso vocabulário ou mudou de sentido. O marchante (do francês “ marchand”) vinha à procura de cabritos, que as pessoas vendiam para obterem algum dinheiro. Possivelmente, iriam parar ao talho, pouco usado naquele tempo. Tenho a ideia que, na vila, apenas havia um ali perto do antigo restaurante do sr. Felisbelo, à saída da vila, e só abria ao sábado!
De tempos a tempos, também por lá passava o contrabandista, que nos abastecia de novidades bem desejadas. Podíamos comprar bombazine para umas calças especiais, ou sedas que as mulheres tanto desejavam, ou ainda perfumes. Para mim chegava uma gorra redondinha na cabeça, com um tufo no meio.
E não se lembram também do amola-tesouras, do amolador ou gateiro? E que serviços importantes ele nos prestava! Com a sua roda pedaleira, quantos milagres ele fazia! Como gateiro, ele recuperava pratos, bacias e alguidares de barro, fixando os pedaços com “gatos” (grampos) e tapando as fissuras com massa reparadora, poupando-nos muito dinheiro. Como amolador, ele afiava tesouras, facas e nada se deitava no lixo. Lembro-me ainda de ser ele a recuperar também sombrinhas e guarda-chuvas com varetas ou panos novos, pois reciclar, ou melhor, consertar era o hábito comum naquele tempo…
Apetece-me agora ser professor por uns instantes. Já olharam bem para a palavra amolar? Sem vos querer amolar(!), este verbo veio da palavra «mola», que parece nada ter a ver com o afiar de tesouras. Temos que ir ao latim para vermos como ela se modificou. Com o uso, houve muitas palavras que começaram a pronunciar-se de maneira mais fácil, como hoje acontece. Exemplos? Muitos dizem «tá» por «está», «brigado» por «obrigado».
A palavra mola, com o uso, perdeu o “l” e passou a «moa» e depois a «mó». Esta síncope dá-se também noutras palavras como dolor>door>dor, salire>saire>sair, tabula>tabua>tábua.
O que é que o amolador tem a ver com uma mó? Sim, o moinho funciona com duas mós, que são pedras redondas a girar e a triturar o grão.
Pois, o amolador usa precisamente uma mó pequena, uma pedra redonda a girar e a desgastar o gume, a afiar a tesoura ou qualquer objeto cortante. E nós também temos os dentes molares, que giram e trituram!
E com esta termino o meu discurso, acrescentando que amolar não significa amolgar nem amolecer, mas pode significar “importunar”.
Oxalá eu não vos tenha amolado!
António Henriques
Nota: Com esta crónica do nosso conterrâneo e amigo António Henriques até o Ripanso revive. Nem amolou nem importunou. Tempos difíceis não significa infelizes. Esperamos a próxima volta à Sobreira.
P.M.M.
