Texto publicado no jornal “Ecos da Sobreira”.
Quando em janeiro vim ao funeral da minha tia Encarnação, prometi ao meu amigo P. Manuel Mendonça que viria cá novamente para uma conversa amiga mais repousante. Chegou agora o dia.
Quis o nosso pároco recordar este momento com uma foto dos três convivas, sim, que visitas éramos dois, eu e o José Andrade, também do Ripanso. E logo surge a ideia de enfeitar a foto com umas palavras mais para o “Ecos da Sobreira”.
Vamos cumprir a promessa.
Quantas recordações me vêm à cabeça… E agora, nos meus 86 anos, mais a memória me acicata e me leva a percorrer estes anos com uma saudade e uma paz alegre, cheia de mais momentos felizes que de tristeza.
A minha tia despediu-se com 108 anos e eu senti até com alegria esse despedimento, pois ela cumpriu exemplarmente o seu ofício nesta terra e até fez de minha mãe por vezes. A nossa fé não diz que esta vida é um caminho para outra melhor?
Nada de tristeza, pois, que a vida é repleta de coisas boas. E lembro-me de tantas!
Olho com saudade a magnólia que ainda hoje nos recebe no largo da devesa e que, com as suas flores brancas, me saudava já quando eu entrava na Escola. Terá mais de 100 anos por certo. E lembro com alegria os meus professores, em especial o prof. Lalanda, que nos dava reguadas e gritava “Ah! Cães danados, Ah! Ladrões da minha alma”, mas nos levava para a Sodina para explicações sem hora marcada e me fez passar “com distinção”, começando assim a minha ascensão social.
Lembro-me muito do forno do Ripanso e do largo onde brincávamos. Eram saborosas as batatas ou cebolas que nós pedíamos para meter debaixo do borralho enquanto se cozia o pão. E as passeatas no meio das estevas pelos campos à procura dos “tubareiros”? Parece que agora lhes chamam trufas! E no verão, durante as férias, as horas que gastávamos com os costis e costelas a caçar “taralhões”? Uma liberdade total pelos campos fora sem os nossos pais se preocuparem, pois toda a aldeia olhava por nós.
E ainda não esqueci o momento em que a malta da vila me convida para também fazer parte da equipa nos jogos entre estudantes e trabalhadores. E eu meti um golo de cabeça a um guarda-redes, mecânico com uns braços bem grossos. Mas também estraguei um joelho para o resto da vida. Agora os dois viraram platina, mas felizmente ando sem qualquer problema.
Sobretudo, saúdo o nosso viver simples, humilde e colaborante, com as pessoas a ajudar-se mutuamente. E ainda lembro o búzio que chamava as pessoas para a apanha da azeitona ou para a reza do terço em maio na casa da tia Luísa e do António Canhoto.
Desculpem, chega, foi muito bom estar convosco. Pode ser que volte.
António Henriques
