O tema era para ser outro. Mas acabo de saber que o nosso pároco, P. Manuel Mendonça, vai ser dispensado de cuidar das paróquias de Sarzedas e Santo André das Tojeiras em setembro, ficando apenas com a pastoral de Sobreira Formosa, Montes da Senhora e Alvito da Beira. É uma redução significativa, embora não lhe tire a ingente responsabilidade de cuidar deste imenso território, o que continuará a acarretar-lhe dores de cabeça e suplícios de alma excessivos.
É esta a Igreja que temos, que muito faz, mesmo sem grandes recursos materiais e humanos. Ainda me lembro da dificuldade que tivemos há meses para marcar um almoço com ele.
Na conversa de então, o nosso pároco falava das suas preocupações com a iluminação e a acústica da Igreja, na visita que fizemos. São pequenos problemas, mas muito importantes.
Hoje, muitas pessoas que frequentam os atos litúrgicos não veem nem ouvem bem, a começar por mim próprio. Narrei-lhe então o calvário que passo se quero ir à missa na minha paróquia de Amora, com uma igreja nova para 800 pessoas sentadas. Não consigo entender as leituras e muito menos a homilia. Recorro então ao telemóvel, o tal que Deus não usa para falar comigo (!!!), e leio lá o que o som da igreja não me permite ouvir. De cinco igrejas na redondeza, só a acústica da igreja da Torre da Marinha me satisfaz em pleno!
P. Manuel, eu não tenho nenhuma experiência do que se passa na igreja da Sobreira. Mas, em nome dos idosos como eu, lembro que nós vamos à missa para rezar e também para nos sentirmos aconchegados com a Palavra de Deus e o convívio com os outros crentes que fazem o povo de Deus. Nunca é demais gastar dinheiro para uma boa comunicação dentro da igreja. E para isso, os idosos pedem bons leitores e bons comunicadores, com palavras pausadas, sem demorar muito («esto brevis et placebis», dizia o papa Francisco – sê breve e agradarás!).
Antes das obras que alargaram a igreja, eu lembro-me do amigo P. Peres, sem microfone, a falar bem alto para se fazer ouvir. Já não me relacionei com o ativo e entusiasmante P. Esteves, eu que deixei de vir à Sobreira por a família se ter mudado para a capital. A ele se devem o alargamento da igreja e a construção dos anexos com a casa paroquial. Mas soube da homenagem merecida que o povo lhe fez e que ainda hoje perdura no largo da Devesa. Tão pouco me relacionei com o P. Silvano.
Assim, falando dos párocos, volto ainda ao P. Peres, no tempo em que não havia sequer uma casa paroquial, tendo ele alugado uma no fundo da vila, por detrás das bombas de gasolina. Era um bom homem, bem-intencionado, muito simples e honesto, ele que acompanhou todo o tempo da minha formação e com quem ainda mantive contacto depois de sair. Acho que ele vinha a pé para a igreja e lá atendia os fiéis, para além de zelar por todas as capelas da freguesia. E também se preocupava com os seminaristas, que no tempo éramos muitos…
Nas férias de verão de 1959, ousou organizar um passeio especial de que o António Pinto, ilustre cronista deste jornal, me enviou um dia esta foto. Nas minhas memórias, fomos todos passar um dia à ribeira do Alvito, a caminho de Castelo Branco, com os apetrechos necessários para uma boa pescaria. O sr. António Esteves das Giesteiras levava as redes e nós gozávamos o dia na água, carregando ainda com os pratos e talheres, com a ajuda do sr. Joaquim sacristão, muito amigo e bom latoeiro.
O problema é que os peixes fugiam das redes e nunca mais se ajeitavam a preceito para alguém os fritar… E a fome começou a gritar! O que nos ia valendo eram os figos, as uvas e outras frutas da redondeza, que nós assaltávamos.
Só sei que o almoço começou pelas quatro da tarde e a foto já nos mostra com os pratos na mão. À frente, está o sr. António Esteves e o nosso pároco. Diz o António Pinto na mensagem: « Eu sou o primeiro à esquerda da 1ª fila, por baixo do Joaquim sacristão. Quem será o jovem de óculos que pega no garrafão de vinho?!» Sim, eu com 20 anos, era o responsável do garrafão.
Se a memória me fala é porque isto foi muito bom…
António Henriques
