Este voltar à Sobreira está a penetrar fundo na minha vida. O pensamento enche-se de memórias há muito abandonadas e até eu me espanto com o que me vem à lembrança.
Na realidade, foram os tempos da escola primária que mais novidade e mais apego me deu à minha terra de nascimento. Ainda hoje, passados tantos anos, me sinto mais sobreirense que amorense, mesmo que seja a Amora onde eu resido há mais tempo. O sentido de pertença adquire-se com relações de amizade e com acontecimentos significativos. E em criança eu tinha toda a capacidade de absorver novos dados.
Quem podia ficar indiferente à construção de uma praça de toiros ao lado do campo de futebol, por cima do Largo da Devesa? Mesmo à Sobreira chegaram estas novidades, sem discutir se eram bem ou mal vindas! A verdade é que eu fiquei entusiasmado com a ilusão de ir ver o cavalo de Clemente Espadanal a escapar-se ao toiro ou o bandarilheiro a contorcer-se todo para não ser tocado e poder ferrar a farpa no dorso do animal. Uma noite, a sonhar, começo a saltar na cama e a gritar “eh boi, eh toiro!” e a mãe teve de me vir sossegar para não perturbar mais a família! Porque é que o nome do cavaleiro nunca me saiu da memória?
A história acabou mal para mim. Começou a circular a notícia que a praça fora construída à pressa e podia desabar com o peso de muita gente. E o pai, que prometera levar-me à tourada, desculpou-se e eu fiquei em casa. Uma desilusão!
Não foi só a tourada que chegou à nossa terra. Também o cinema lá chegou e não era necessário preparar grandes artefactos para isso acontecer. A igreja, antes de ser ampliada para o adro, tinha uma parede bem larga e branquinha onde se podiam projetar as cenas dos filmes daquele tempo. E o largo do adro era bem grande para acolher as muitas pessoas que gostavam de ver filmes. Era o tempo do nosso Vasco Santana, bem gorducho, que um dia por lá passou numa cena do filme de que eu já perdi a memória. Mas bem me lembro de ele estar a espetar um prego na parede e, às tantas, salta do buraco um grande esguicho de vinho tinto que não parava de escorrer. Aquilo impressionou-me e no dia seguinte, quando passei por lá para ir à escola, ainda me aproximei da igreja para ver o tal buraquinho a jorrar vinho. Outra desilusão!
Mais tarde, as projeções passaram para o campo de futebol, na Devesa, e o ecrã era montado por cima da baliza. Ainda um dia tudo se desmoronou com uma ventania. Mas os apreciadores de cinema esperaram até tudo ser reposto e lá vimos o filme a contento.
Ao falar na Devesa, também me lembro de ter sido aí que aprendi a guiar uma bicicleta. O sr. Manuel Janeiro (que era barbeiro, vendia loiça e era o pai do meu amigo Francisco Manso!)) também alugava bicicletas e por 25 tostões eu dispunha de uma hora de treino. Pegava na bicicleta e ia até às escadas do Clube no cimo do campo de futebol para montar o engenho. Depois vinha pelo campo inclinado e descia para o largo da Devesa. A primeira vez fui mesmo esbarrar numa árvore e entortei o guiador. Para aprender é preciso asneirar, não é?
E aqui estou eu ao lado da velhinha magnólia, que ainda enfeita a Devesa.
Ainda hei de voltar, se Deus quiser. Até à próxima.
António Henriques
NOTA DO DIRETOR DO ECOS DA SOBREIRA
As recordações do nosso amigo António Henriques, dos seus tempos de criança e juventude, vividos no Ripanso e Sobreira Formosa, despertam também recordações noutros contemporâneos e avivam o imaginário de quem veio atrás.
Ecos da Sobreira aprecia e agradece esta colaboração. E lança uma proposta a outros a residir fora: deem notícia e enviem uma fotografia de grupo de eventos que sobreirenses tenham promovido e vivido.
P. Manuel Mendonça
