Texto acabado de publicar no jornal “Ecos da Sobreira”, a minha terra natal.
Quando pensei voltar a escrever para o jornal, a primeira ideia que me veio foi lembrar as muitas mudanças que moldaram a minha história desde os tempos de gaiato pelas ruas do Ripanso. São muitas as peripécias que fazem a nossa vida! Nessa altura, eu não decidia, pois os adultos é que sabiam o que era melhor para nós.
A casa onde nasci ainda lá está, ao fundo do Ripanso, caiada e abandonada como muitas na mesma rua. O silêncio domina o ambiente e a falta de residentes provoca o estado decrépito das ruas. Esta é a triste realidade!
Ainda em criança, o pai vai fazer casas para os mineiros na Panasqueira, de onde retive as primeiras memórias, e arranja dinheiro para construir a casa nova no cimo do Ripanso, em conjunto com a tia Encarnação. Foi a primeira grande mudança.
Uns anos passados, já nos encontramos em Vila Velha de Ródão, na Cerâmica de Ródão, onde fiz a segunda classe com o prof. Benjamim, que chegava à escola montado no seu burrito. Foi ele que disse ao pai: «o seu filho tem de ir estudar…»
– Mas como? Respondeu.
Quando terminei a quarta classe, nem eu sabia o que iria fazer. Talvez acompanhar o pai no trabalho… Estudar era impossível, com mãe doente e o pai a ganhar três escudos por dia. O meu pai escreveu quatro cartas para comerciantes conhecidos de Lisboa a pedir emprego para o filho. E pediu à minha mãe para comprar selos e as meter no correio. Mas a mãe, com outras ideias pelos vistos, escondeu as cartas debaixo da roupa na cómoda. Acasos?
Na Igreja, missas de domingo, fala-se da hipótese de ir para o seminário. Era mais barato e eu continuava a estudar. E foi esta a mais radical mudança na minha vida!
Difícil? Sim, o meu pai tinha de trabalhar meses para juntar os 400 escudos que eu pagava de anuidade. “Se for preciso, vende-se uma propriedade”, disse ele um dia! Grande homem, este Aníbal Henriques, que sempre deu muita importância à escola.
Trabalhava ele na barragem da Bouçã e um empresário oferece-lhe o dobro do ordenado para ele ir trabalhar para a capital. E ele foi. Melhora o vencimento, mas continua a viver com muitas dificuldades.
No Seminário, eu estudava, rezava e brincava. E até nos deram logo uma bola de cautxu para jogar futebol. Que bom! Uns meses antes, na escola, o professor deu só 24 reguadas a cada um de nós por jogarmos à hora de almoço com uma bola de cortiça, trazida da Figueira às escondidas… Incongruências?
Nas férias, acompanhava a mãe nas tarefas domésticas e no trabalho das hortas. Uma das tarefas era lavar roupas e colchões na ribeira do Vale da Catrina. Os gaiatos passavam o tempo a apanhar uns peixinhos e a aprender a nadar nos poços mais fundos. O mais perigoso era no Marcelino (hoje, aldeia deserta), para onde até podíamos saltar do alto de uma parede. O que mais nos agradava era a liberdade de movimentos no nosso dia a dia.
Para terminar por hoje, reconheço que o grande elevador social foi a escola, o estudo, a vontade de saber mais. Fui aluno durante 20 anos, e só chumbei uma vez, quando fui tirar a carta de moto!!! Ainda hoje, aos 86 anos, vou a aulas de Inglês e Informática e sempre aprendo mais.
Obrigado por me lerem.
António Henriques
