Mais um texto saído no “Ecos da Sobreira”
Hoje vamos parar na PRAÇA, um nome que não consta da toponímia atual da nossa terra. É hoje a confluência das Ruas do Comércio e de Nuno Álvares, onde ainda agora podemos saborear a sombra de outra árvore centenária, um ulmeiro estendido por sobre uma estrutura metálica bem acolhedora, que a foto documenta e já acolheu quatro ou cinco gerações de sobreirenses. Da outra já falámos noutro texto – a magnólia em frente da nossa antiga escola primária na Devesa.
A foto foi-me cedida com gosto pelo António Manuel Sequeira, que posa com orgulho na mesma foto. Fomos colegas de escola e partilhámos já muitos bons e maus momentos da vida. Há poucos dias falámos destas coisas, a rejuvenescer a memória! Ele também podia enriquecer o “Ecos…”! Ele sabe tanto…
A PRAÇA era o coração da vila, especialmente nos domingos de tarde. Era neste espaço que as pessoas se juntavam em convívio, descansando de uma semana de trabalho. As tabernas alimentavam as conversas e era ali também que se faziam pequenos negócios, contratando mão de obra para algumas jornas. Alguém me disse (eu não me lembrava!) que na PRAÇA também se vendia peixe e os bolos que tanto alegravam as crianças, pois não eram petisco de todos os dias! Bolos para mim ainda hoje são as ferraduras que os padrinhos ofereciam aos afilhados no dia das Endoenças (quinta feira santa!).
Passados uns anos, até apareceu lá um café, onde se vendia cerveja. Nas tabernas bebia-se mais vinho e pirolitos (as crianças deliravam com o berlinde que cada garrafa continha…).
Era também por ali que havia as lojas de comércio, onde as pessoas do termo se abasteciam das poucas coisas de que necessitavam. Sim, quase todos tinham hortas e campos onde semeavam e plantavam legumes, árvores de fruta e cereais.
Uma das lojas que minha mãe frequentava era a loja do sr. Aurélio, de onde levava arroz, massa, açúcar, café, vinagre, etc… Sobretudo nos anos de 1944/45, com a segunda guerra mundial, era naquela loja que se aviavam as senhas de racionamento do arroz, açúcar, óleo, bacalhau e não sei que mais.
Para roupa e tecidos, tínhamos a loja do sr. Manecas, onde o sr. Joãozinho nos servia sempre atenciosamente. Além da loja, o sr. Manecas tinha uma fábrica de azeitona de conserva, ali por cima do Poço Redondo na estrada da Isna, onde o meu pai fazia pipas de madeira para enviar a azeitona para o Brasil, a Jordânia e outros lugares. Em 4 ou 5 dias tiravam a acidez das azeitonas, eu ficava admirado…
Voltando à praça, também tínhamos lá a farmácia Daniel de Matos, hoje deslocada para outra rua. Acho que era para esta mesma família que trabalhava um humilde espanhol, fugido da guerra civil de Espanha. Foi também na PRAÇA, em frente à taberna do meu tio Luís, que eu vi na parede um grande poster com a foto do Norton de Matos com avental de maçon, parecido com o que meu tio sapateiro usava. Foi candidato a Presidente da República pela oposição em 1949. Por ali também havia gente do contra!
Voltando ao centro, a rua prolongava-se para sul, com os tecidos da loja do sr. Ferreira e, mais acima, a loja do Menino Henrique e sr. Júlio, onde eu pratiquei o único roubo da minha vida: enquanto o colega comprava lápis ou borracha, eu tirei uma alfarroba de uma saca e escondi-a para saborear mais tarde…
Para concluir, a PRAÇA também era o local de entretenimentos especiais. De tempos a tempos, ali se montava uma praça de toiros, mesmo antes da praça de Devesa. Tapavam-se as ruas com vedações de madeira e o garraio deambulava livremente por todo aquela arena, investindo contra os mais afoitos! Eu assistia à garraiada na janela do meu tio Luís e via os homens a refugiar-se atrás das portas quando o bezerro investia e usava os chifres para mostrar a sua valentia. Confesso que ainda hoje me divirto bem com imagens das touradas à corda nos Açores!!!
Na minha memória, vejo sempre uma praça movimentada, com gentes várias, cordatas e respeitadoras.
No final do dia, os que bebiam uns copos a mais arrastavam-se pelas valetas e chegavam tarde a casa. Mas, nos dias de semana, tudo voltava ao normal e o trabalho era a única ocupação. E por aqui me fico hoje.
Obrigado a todos os amigos que me têm estimulado a escrever.
António Henriques
