Tenho lido com interesse e gosto os textos do Manuel Leitão, colaborador no nosso “Ecos…”, que resultam da sua investigação histórica sobre a nossa freguesia nos séculos passados.
É com a sua conclusão no jornal de julho que começo o meu texto: «…apesar do isolamento do mundo, da dureza do clima e da escassez de recursos, a vida, o património e o amor continuavam a florescer e a perpetuar-se no coração de Portugal.»
Nas minhas memórias de menino e adolescente, a que tenho recorrido para escrever os meus textos, também constam os momentos de festa e de relacionamento entre os vizinhos e os habitantes das aldeias próximas. O trabalho parava e começava o convívio. Os momentos de festa e alegria combatiam o isolamento geográfico e as agruras da vida.
Já me referi aos domingos na Vila, num texto sobre a Praça – o local maior de convívio, a que posso acrescentar a Devesa com suas festas e jogos de futebol.
Também podia lembrar as feiras, onde o convívio se juntava à aquisição de produtos necessários à família.
Havia ainda as festas religiosas, onde se rezava e convivia o dia inteiro, com saborosos lanches repartidos, muita música e bailes animados, isto na Vila e em muitas aldeias com capela, nomeadamente os Maxiais, os Cunqueiros, Vale da Ursa ou Atalaias.
Mas o que hoje me prende a atenção são sobretudo os bailes, como eventos especiais para cultivar a alegria, a amizade e o amor entre os jovens.
No Ripanso, era no largo do forno que a festa acontecia. De vez em quando, havia baile e não era preciso grande preparação. Uma simples gaita de beiços (flauta) ajudava, mas era sobretudo uma concertina que mais chamava os dançantes. Para pagar ao artista, as mulheres organizavam-se, faziam e sorteavam um bolo. Bem me lembro que, ainda criança, tive uma vez a alegria de a minha rifa ser a sorteada e ter levado o bolo para casa!
Outra lembrança especial foi um baile organizado na loja da nova moradia da tia Viviana e do tio António Laia no cimo do Ripanso. Acho que foi para celebrar o fim da obra, mas também para pisar e assentar mais a terra de que era feito o chão. Aí cantava-se para marcar o ritmo, com as mães e outras pessoas sentadinhas à volta das paredes. E foi aí que pela primeira vez passei a dançarino, de braço dado com uma rapariga!
Célebres, no entanto, eram os bailes das festas nas aldeias vizinhas. Juntavam-se os moços e as cachopas e iam em grupo à Figueira, às Giesteiras, aos Maxiais, aos Montes, em longas caminhadas. Nem sempre a juventude dessas terras os recebia com gosto, por temerem que os forasteiros lhes “roubassem” as raparigas. Aconteciam até escaramuças, mas mesmo assim o amor passava de terra para terra. Como é que o meu pai, da Ribeira do Vale da Ursa, se uniu à minha mãe, do Ripanso? E, na verdade, os casais do Ripanso são na maioria duplas de aldeias vizinhas: Sesmos, Giesteiras, Figueira e Montes da Senhora…
Em conversa com amigos, soube que, passados uns anos, os jovens iam mais longe ainda… De bicicleta ou motorizada, até chegavam a Proença, fazendo da noite dia e sacrificando-se por causa da festa.
Naquele tempo, não era fácil um rapaz estar a conversar com uma rapariga e muitas vezes o namoro fazia-se com a rapariga à janela e o rapaz na rua! Assim, todos aproveitavam os ajuntamentos para se encontrarem…
Estou a terminar esta crónica, que penso vai ser a última. Este compromisso de voltar à Sobreira foi mais o pagar uma dívida ou fazer um agradecimento a quem me acompanhou em criança e contribuiu para me fazer homem voltado para os outros e sempre a colaborar para melhorar a comunidade, que é também assim que me olham na minha Amora atual.
O número 7 significa a perfeição e Deus também descansou ao sétimo dia! Não quer dizer que vá parar, pois “parar é morrer”! Continuo a frequentar aulas na Unisseixal (que ajudei a criar há vinte anos!), a aprender mais, a ler e a escrever no blogue «Oficina Português» – https://oficinaportugues.unisseixal.org/. E é provável que um dia volte a escrever para o “Ecos da Sobreira”, sobretudo para agradecer e apoiar quem mensalmente prepara os conteúdos para chegar aos sobreirenses dispersos pelo mundo, a começar pelo nosso pároco.
E se me permitem, deixo apenas este conselho: encontrem maneiras de viver cada dia e saibam perdoar, como Jesus também perdoa. A mente fica limpa.
António Henriques
NOTA DO DIRETOR – Agradeço a colaboração que o amigo António Dias Henriques nos deu com as 7 viagens que fez ao passado do Ripanso e Sobreira Formosa. Como ele próprio diz, não é para parar. Que seja elevada a probabilidade de voltar a escrever para o Ecos da Sobreira. Muito obrigado.
Esta nota dá-me a oportunidade de convidar Sobreirenses a residir fora a escreverem também alguma notícia ou comentário para o nosso jornal.
Manuel Mendonça
