Fotos de outros tempos1

4 – A minha infância assistiu a grandes transformações nos processos de preparação dos alimentos para a alimentação. Até nisto somos uns privilegiados, pois estávamos continuamente a presenciar as novidades maravilhosas deste mundo novo.
A madeira foi sempre a primeira fonte de combustão para fazer calor que preparasse os produtos para a alimentação. Lenha havia muita, felizmente, e era fácil ir ao campo buscar pinhas e pedaços de madeira. Mas o petróleo permitiu o aparecimento de novos e mais fáceis processos de preparar alimentos. Este fogareiro apareceu cedo na minha casa. Com um depósito de petróleo, pressionava-se uma bomba para encher de ar o depósito e fazer subir o petróleo, que se incendiava, depois de na cavidade inferior se deitar álcool a arder por um ou dois minutos..
Recordo com tristeza a pouca sorte de uma vizinha que se queimou toda quando o frasco de álcool explodiu…
Criança ainda, também chegou o gás à nossa casa, com um bico instalado numa estrutura quadrada de metal sem arrebiques nem beleza, onde se assentavam as panelas como antes se punham numa trempe em cima do lume.

5 – A nora era outra máquina muito importante para regar os campos. Trazida pelos árabes, assim como a picota, era constituída por uma grande corrente de ferro em duplicado, que rodava em cima do poço e se estendia até ao fundo. Acoplados a essa corrente, estavam os alcatruzes a pouca distância uns dos outros. Com a ajuda de um burro, a andar devagar e ritmadamente à volta do poço, de olhos vendados, esta corrente de alcatruzes passava pela água e cada um deles trazia aí um litro de água (?!), que despejava para uma caleira quando dava a volta cá em cima e avançava novamente para o fundo.
Gaiato pequeno, a brincar com o burro, talvez a querer apressá-lo batendo-lhe com uma cana, apanho com um valente coice no queixo que me prostra no chão. Toma e aprende: não se brinca com quem trabalha, seja pessoa ou animal!

6 – Belas lembranças me traz esta foto. Havia um moinho coletivo, pertença dos habitantes da aldeia, em que todos tinham um quinhão. Assim, o meu pai tinha direito a usar o moinho uma vez por mês ou um pouco menos. Para mim, era uma alegria ir com o meu pai ao moinho, carregar com um pequeno taleigo de grão de milho ou centeio e estar lá horas sem fim a ver girar a moenda e observar atentamente todos os movimentos, o grão a cair no buraco central da mó e a farinha a ser expelida para fora depois de umas tantas voltas daquela pedra redonda a rodar sem fim…
Melhor ainda era ir à noite e dormir no próprio moinho. Tinha a sensação que já era grande e útil à família, embora fosse o pai a fazer tudo ou quase!

7 – O forno da aldeia. Muitas recordações me chegam à volta deste forno. Na verdade, ele era o coração da aldeia e o ponto de encontro das suas gentes. À volta do forno havia um largo, antiga eira onde se malhava o cereal. Era ali que se faziam as festas, se dançava e se jogavam as cartas.
O forno era pertença da aldeia e ali todas as mulheres coziam o pão, os bolos ou as carnes. Era preciso marcar a vez e cada qual trazia a lenha para aquecer o forno. Uma cozedura fazia pão para uma semana, acho eu.
As crianças da aldeia brincavam naquele largo e, quando a mãe deixava, levavam de casa uma batata ou uma cebola e pediam à padeira do momento: “deixe-me meter esta batata debaixo do borralho que está à porta do forno!” E que rico pitéu conseguíamos!
Este forno, com tanto uso, por vezes precisava de ser reparado. Um tijolo caía ou a porta não funcionava bem. Mas era difícil o povo reunir-se e combinar o conserto. Uma semana, duas semanas passam e nada… Todos se queixam e ninguém se mexe! O forno ainda serve…
Até que, numa manhã, o forno aparece mesmo destruído. Pela calada da noite, alguém mais resoluto pegou numa picareta e deitou abaixo o forno. E ninguém se queixa, mas todos se reúnem à pressa para consertar o que é do interesse de todos. Chama-se a isto «fazer o mal por bem»!
Muito mais podia dizer, mas termino só com uma história real: o ti Manel dos Farrapos, um andarilho das aldeias encontrava naquele forno a cama quente onde se deitava nos dias de inverno. Toda a gente o respeitava e ajudava. E por alguns anos o vimos na sua vida de vagabundo.

Obrigado por me terem lido…

António Henriques